quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Uma crônica com uma prece se parece?

(para o dia da favela)

O inóspito da crônica é quando ela se coloca assim mesmo: com situações que se sobrepõe e se servem para contextualizar um determinado assunto. Hoje, por exemplo, vivi algo sui generis, apesar de estar inserido na mesmice do cotidiano.

Descendo a Av. Pastor Martin Luther King, antiga Av. Automóvel Club, às 8h:30, rumo a estação do Metrô de Irajá, vi uma senhora em seus aparentes mais de setenta anos (apesar de nos negros o tempo parecer passar com mais vagar); que aventurava-se no tráfego intenso dos carros e ônibus a despejar os muitos trabalhadores, oriundos da Pavuna, Acari, ... , e os demais bairros adjacentes à Baixada Fluminense. Ela tentava, ali, desvincilhar-se de uma abjeta vala de esgoto, aberta há uns dois meses numa das calçadas da via. Eu, sentindo-me compelido a ajudá-la, já que previra algo pior; puxei-lhe carinhosamente pelo braço, recolocando-a na calçada e ajudei a atravessar, sob uma tábua, a fétida vala. Foi rápido e simples, mas pelo rápido e caloroso olhar de agradecimento daquela desconhecida senhora, senti-me um anjo.

Incrível constatar que em pleno século XXI, com todas as promessas de bonança de nossos governantes, principalmente, para 2014 e 2016; convivamos, ainda, com situações precárias de esgoto nesta cidade. Triste perceber que as políticas públicas voltadas para o espaço urbano, continuem sua trajetória desigual, nas suas variadas zonas de loteamento. Perpetuando o contínuo relegar a segundo-terceiro plano as áreas menos favorecidas da cidade, como o é o bairro de Irajá e suas adjacências. Inclua-se neste métier, todas as favelas da cidade, com seus representativos um milhão e cem mil habitantes.

Na favela, diga-se de passagem, não só nos saltam os olhos das manchetes - a violência reinante, como a que se faz perceber no momento, em Vila Kenedy; mas são poucos os casos de saneamento bem-sucedidos e responsáveis. O que se vê por aí, registre-se bem, por sinal, são as iniciativas do Governo Federal, para as comunidades de Manguinhos; Maré; Rocinha; Cantagalo/ Pavão-Pavãozinho e Complexo do Alemão - devido as obras de infra-estrutura urbana do Programa de Aceleramento do Crescimento (PAC).

Para os que aguardam um choque de ordem pelo bairro, ou uma próxima visita da secretária Rosa Fernandes, para sanear o que nem deveria transbordar a céu aberto, podem ficar aqui, como cá estou, a queixar-se em pleno mundo virtual, ou a fazer como fiz em seguida ao bravo ato que protagonizei - orando aos céus, suplicante por melhoras no nosso conurbado e conturbado espaço público. Em parte das minhas petições disse assim: -Senhor, faz de mim um anjo. Não para o meu resplendor, mas apesar de pequeno; ao teu serviço.

2 comentários:

Alexandre disse...

Na verdade uma coisa leva a outra...a crítica feita virtualmente nunca será em vão. Afinal, até mesmo os políticos tem acesso à internet (email, etc). Caso este não responda, o problema já será outro, educação...

Breiner77 disse...

Realmente é muito lamentável a negligência política às questões sociais. Vide os discursos em época de eleição: saneamento, saúde, educação e desenvolvimento tecnológico. Infelizmente só se esforçam pelo último, abrindo, literalmente as pernas às miltinacionais e transnacionais, pelo trabalho precário e barato.
Resta-nos buscar de alguma maneira, lutar contra tudo isso, seja no protesto virtual e/ou de rua..